Essa noite seria, mais uma vez, aquela que passaria a sua maior parte deitada olhando para o teto com um sorriso bobo nos lábios e um frio na barriga. Esta tão constante esse quadro que já nem mais ligava...
Sentia-se tão frágil, tão pequena, tão perdida quando estava com ele. E muito mais ainda sem aquela presença tão viciante. Ele era seu vício e sua perdição. Aquele que lhe dava cores as manhãs cinzas de inverno e que lhe fazia prender a respiração de insegurança...
Ele era o motivo do tamanho racha que se ocasionou em sua pessoa. Ele era o responsável pelas mentiras descaradas que todos percebiam, pelas risadas fora de hora, pelo despertar do seu lado mais emocional e irracional...
Já cansou de contar às vezes que negou seus sentimentos, que disse que não queria mais, mas só foi ver o seu sorriso que se esquecia de todas as suas promessas e discursos e corria para seus braços...
E então? “Me dá mais um abraço?”.
Oras e desde quando foi tão fácil assim se conformar? Perder noites de sono, sentir-se sozinha, pra quê? Decidiu que estava mais do que na hora de deixar isso passar... Esperar, viver... Se for será, senão já foi... Viver à margem, seguir a banda, rezar na mesma cartilha... Isso não era para ela, já sabia disso! Gostava de inovar, inventar, curtir... Queria os risos sem motivos, os brindes por nada, as festas às segundas...
Quanto aos sorrisos, aos abraços? Iria admirá-los, senti-los, apreciá-los, iria viver para eles, não mais por eles...
Vai tirar a poeira dos velhos vinis, ler mais uma vez aquele romance, assistir a mais filmes de suspenses...
Quem sabe ainda não dê para pegar à sessão da meia-noite?
Por quê? Por que, droga! Decidiu dar mais um volta no parque para esfriar a cabeça.
Sabe que isso não é direito! Sabe que isso não é possível! E sabe, principalmente, que isso é o que mais deseja... Não adianta negar, sempre que está perto seu coração falha uma batida, seus dias ficam mais felizes, se sente completa, como a muito não sentia!
Adora seus carinhos, sua preocupação, seu jeito meigo de fazer sempre as mesmas coisas... Os sorrisos sinceros, os abraços apertados, o ombro amigo...
Corre cada vez mais rápido para fugir dos sentimentos que ultimamente mais a atormentam. Sabe que não conseguirá fugir, sabe que eles sempre estarão lá. E sabe, também, que eles nunca vão se realizar...
Deve se conformar, ela sabe disso, mas é tão complicado... Quantas vezes não se pega pensando, sonhando, suspirando... Tudo em vão, mas fazer o quê? Não se podem escolher certas coisas, assim como essa...
Erick Guerra