Um suspiro cansado ouviu-se ao terminar mais um daqueles trechos do grande e empoeirado livro. Já se passava das três da manhã. A garrafa de café já tinha acabado e o que tinha na xícara estava frio.
Decidiu andar até a sala e desligar a TV. Como de costume, ele já tinha dormido no sofá enquanto esperava-a terminar o trabalho. Era rotina, por mais desnecessário que fosse, ela adiantar os trabalhos do dia seguinte.
Na verdade aquela rotina era só a máscara para a falta de coragem de pôr um fim naquele relacionamento. Era tão duro, tão difícil... Ninguém a compreenderia, ninguém além dela.
Mais um suspiro cansado e um olhar pesaroso. A tristeza agora contrastava com a raiva do julgamento dos outros. Quando teria coragem de fazer suas escolhas e pagar o preço?
Achava que nunca. Tinha a certeza que nunca. Nunca deixaria que fosse alvo de olhares de desprezo e decepção. Nunca aceitaria ser alvo de conversas e fofocas. Melhor seria continuar com aquela farsa.
Sabia, principalmente, que não estava magoando somente a ela, mas também ao seu grande amor, apenas pela sua falta de coragem. E ao grande amigo que outrora fora sua paixão e que agora jazia num sono tranqüilo no sofá da confortável sala.
Mas quem, atualmente, não vive de farsas, não é mesmo? – Era mais fácil para ela pensar assim.
Erick Guerra