Óculos azuis

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Existia um menininho que logo que nasceu colocaram-lhe óculos azuis. Foi passando os dias, meses, anos e a garotinho continuava com os óculos azuis.

Um dia, quando estava lendo seu livro tranquilamente e admirando a paisagem linda que se formava, avistou uma menininha que sentou na ponta do mesmo banco da praça.

 

Olá – disse a simpática menina-. Ele, muito desconfiado, mediu a garotinha de cima a baixo. Nisso ele pôde reparar que ela não usava óculos!

 

Olá, meu nome é Sarah - disse com um sorriso - e o seu?

 

Ele novamente encarou a menina que continuava sorrindo e puxando conversa com ele.

Oi – respondeu seco- Meu nome é Rafael.

 

Ah! Que lindo nome! Tinha um amigo que se chamava Rafael também. – dizia alegremente, ignorando o fato do menino continuar desconfiado e, até certo ponto, distante.

 

Após uma tarde de conversas o menino foi se soltando e até contando várias coisas para a simpática garotinha. Dias se passaram e todas as tardes eles se encontravam no mesmo banco para continuar a conversa que a eles era tão agradável. Rafael nem mesmo levava mais o seu livro para distanciar-se do mundo, ou exibia aquela feição fechada de sempre, embora continuasse a usar os óculos azuis.

 

Uma noite, quando estava jantando com sua mãe e seu pai, resolveu comentar a grande amizade que tinha surgido tão inesperadamente. Ao contar aos seus pais a maior novidade de todas, a reação deles o surpreendeu. Esperava o apoio e o interesse por parte deles, mas o que veio o chocou mais do que tudo. Eles o colocaram de castigo pelo fato de se relacionar com a menina que não usava óculos.

 

Após aquele episódio do jantar, Rafael decidiu ir deitar cedo, não estava disposto a conversar nem brincar naquela noite, apesar de não conseguir dormir. Ficou pensando na garotinha tão simpática que não usava óculos.

 

No outro dia, no horário de sempre, resolveu ir à praça. Dessa vez, porém, levou consigo um livro. Ao chegar lá ele reparou que Sarah já o esperava, no mesmo instante um sentimento de tristeza se apoderou dele. Ele lembrara que os pais o proibiram de conversar com a sua mais nova amiga.

 

Sentou-se no banco, abriu seu livro e começou a ler, tentar na verdade, já que não conseguia assimilar nada. Suspirou fundo e decidiu olhar para a garotinha que alegrava suas tardes. Ela tinha um olhar triste, como se lesse tudo o que se passava com o pequeno. Ficaram um bom tempo apenas se olhando, como se acreditassem que aquele olhar poderia trazer a solução para todos os problemas.

 

Vendo que ele não falaria nada, Sarah revolveu quebrar o silêncio:

 

- Vejo que eles já descobriram, não? – Continuava com um sorriso no rosto, mas esse era triste, melancólico.

Sim, eles descobriram. Eu ainda não entendo o porquê! Você é tão legal, o que tem de mais em uns óculos bobos? – Agora Rafael falava expressando todo o seu rancor em cada palavra.

 

Sarah surpreendeu Rafael ao ir até ele e depositar um beijo em sua bochecha e abraçá-lo. Ele, sem entender, a abraçou forte e sussurrou em seu ouvido: - Por quê?

 

Ela sem dizer nada o fitou, sorriu e perguntou se ele confiava nela. Ele, envolto naquela áurea de amizade e segurança disse que sim. Sem hesitar Sarah retirou os óculos do garoto à sua frente.

 

Ele, numa desesperada maneira de proteção, fechou os olhos com toda força que tinha. Estava a ponto de gritar que ela o traíra e tentara machucá-lo quando escutou a vozinha dela em seu ouvido:

 

- Você não disse que confiava em mim? Mostre! Abra os olhos!

 

Ele nada respondeu, apenas suspirou alto e começou a abrir os olhos lentamente. Primeiro um e depois o outro. Ao final do processo estava bestificado com o resultado. Era linda a visão sem seus óculos, o mundo cheio de cores que ele jamais sonhou em ver.

 

Nossa! Minha nossa! – era apenas o que Rafael era capaz de dizer enquanto olhava maravilhado a tudo a sua volta.

 

Sim, eu também acho tudo isso maravilhoso! E tenho a certeza que privar as pessoas disso é o verdadeiro crime, não o de se abster-se de uns óculos ridículos que impedem de ver as maravilhas da vida! – Comentava a garota com um sorriso enorme nos lábios.

 

 

 

Hoje, de certa forma, somos como esses garotinhos, Rafael e Sarah. Muitos de nós nos privamos de coisas maravilhosas por preconceitos bobos e costumes, incriminamos pessoas que não cometem nada, enquanto o verdadeiro criminoso somos nós.

 

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Postado por: Senseless Amy às 13h45
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