Aquela visita ao bar

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Estávamos no mesmo lugar que há anos estivemos. Sentados na mesma mesa, bebendo o mesmo tipo de vinho e analisando a vida.

 

Ah! A vida, um brinde a ela! Quantas peças elas nos prega, não? Já tinha estado naquele lugar, num dia tão nublado quanto esse. O cheiro de carvalho da mesa, a decoração fria, a luz fraca, a taça de vinho, escuro como o sangue que corre em minhas veias...

 

Tudo tão parecido... E apenas isso! Semelhante o sorriso que esboça em minha face, as pessoas que sempre lotam as mesas com conversas alegres. Alguns já tomados pelo início da embriaguez, outros alegres pela companhia, pela comida, pelo status. A sociedade é tão mesquinha!

 

Naquele primeiro dia talvez não tenha pensado nisso, estava muito preocupado em aproveitar meus amigos, a bebida abundante e a farta comida. Hoje consigo ver, muitos atribuem o fato por estar amargo, que não existe conto de fadas. 

 

Enquanto estava com minha indignação indigna, tomando vinho francês e comendo um bom prato italiano, podendo de abrigar do frio cortante que tomava as ruas lá fora, milhares de pessoas morriam de fome e de frio.

 

Ridículo, eu sei. Como eu, alguém que nunca passou fome, que nunca passou frio, tem bagagem para dizer algo como isso? Burguês boêmio, filhinho de papai, que sempre teve tudo o que quis. Acho que por essa mesma razão, de sempre ter tudo e fácil, que não me importo mais com o que tenho. Meu lado humano, mesmo que apenas teoricamente, fica indignado ao ver as injustiças, a miséria, a exploração. Quer fazer revolução, tomar o poder e mostrar que o regime instalado hoje não funciona.

 

Parte de mim, a egocêntrica e acomodada diz que nada tenho eu a ver com isso, pago meus impostos, faço algumas doações e preservo o ambiente. O resto? Que aqueles que têm como dever melhorar o sistema que o faça!

 

A briga dentro de mim ecoa mais uma vez pela minha mente. Sinto que a taça de vinho chega ao fim mais uma vez. A garrafa quase vazia em cima da mesa reflete o que sinto agora, uma pessoa quase vazia. Para que tanto conhecimento se nada faço com ele?

 

Tomo a taça nas mãos e despejo o último conteúdo da garrafa. O último brinde, aos que dormem um sono tranqüilo sem pensar em nada! Viro todo o conteúdo de uma vez. Admirando o sabor doce, suave e marcante que desce pela minha garganta.

 

O vinho acabou, assim como a comida, como a briga interna dentro de mim.

- Garçom, a conta, por favor.

 

Retiro-me da taberna sem olhar para trás, como esperando que esse gesto fosse capaz de abandonar meu súbito momento de consciência e ir para casa dormir em paz. Quem sabe não voltarei outro dia, tão nublado quanto este, para concluir meus pensamentos ou decidir transformá-los em ação.



Postado por: Senseless Amy às 03h06
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